segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Quem precisa de igreja?

Saudai também a igreja que está na casa deles. Rm 16:5



Freqüentemente ouvimos pessoas que se autodenominam cristãos tentando justificar sua ausência na igreja (em qualquer igreja). O discurso é sempre o mesmo: não é a igreja que salva, me decepcionei com as pessoas, a igreja é uma estrutura burocrática, o pastor é isso ou aquilo.

A igreja, como a conhecemos hoje, surge na era apostólica, ou melhor, surgem, pois eram várias igrejas, cada uma definida pelas pessoas que se congregavam, Paulo se refere a “todas as igrejas de Cristo” (Rm 16:16) quando quer fazer menção das igrejas locais.

Isso, porque uma coisa é a Igreja Universal (não, não estou me referindo a essas que se dizem “universais”): aquela que congrega todas as pessoas que tem Cristo como seu único e suficiente Salvador. Aquela cuja cabeça é o próprio Cristo e da qual nós todos somos partes do corpo. Aquela das pessoas cujos nomes foram arrolados no céu.

Outra é a igreja local, que reúne pessoas que compartilham a mesma fé e que se congrega regularmente, como preconiza o autor de Hebreus (Hb 10:25). Local onde se ensina a escritura, celebram-se a ceia e o batismo, local de adoração, louvor, oração. Local de correção e disciplina, mas também de conforto e encorajamento. Que tem como missão buscar os que não tem Cristo e ajudar os necessitados.

Sendo essa uma estrutura neotestamentária é justamente nesses livros da Bíblia que encontramos a descrição de que pessoas precisam da igreja:

a) Pessoas humilhadas pelo pecado: que sabem o valor dos bens espirituais. Mesmo porque, quem não tem a coragem ou a humildade de reconhecer os seus pecados não vê nenhum valor em fé, amor e esperança. O mesmo livro de Hebreus (3:7-13) exorta os crentes contra os duros de coração. Esses se bastam, não precisam nem de Deus, nem de igreja.

b) Pessoas dependentes: não existe nenhum ser no mundo que seja totalmente independente (a não ser o próprio Deus). Na igreja somos todos dependentes uns dos outros e, todos juntos, dependente do cabeça da Igreja. Pessoas auto suficientes, pessoas que acreditam que a fé se pratica isoladamente, no mínimo, se acreditam possuidoras de todos os dons. Ou acham que o corpo funciona só com um pedaço – e que eles são esse pedaço mais “nobre”.

c) Pessoas imperfeitas: já ouvi que “o desafio de viver como um perfeccionista é tão agradável quanto abraçar um cacto”. Mas muita gente sai da igreja porque ela está cheia de pessoas imperfeitas. Claro, são elas que precisam de igreja, não os que se enganam a si próprios achando que são os melhores (1 Jo 1:8, 10).

d) Pessoas que precisam de ensino: quanto mais estudamos a palavra de Deus, mais precisamos aprender, sejam aqueles que bebem do leite espiritual, sejam os que já comem alimentos sólidos, todos precisamos continuar crescendo, naquele que é o cabeça, Cristo (Ef 4:16). “Se alguém acha que sabe alguma coisa, ainda não sabe como convém saber”. (1 Co 8:2).

e) Pessoas esquecidas: algumas pessoas gostariam de esquecer fatos das suas vidas, mas é impossível viver num mundo onde esqueçamos sempre de tudo. Muitas vezes esquecemos dos nossos maus comportamentos do passado...e voltamos a eles (Tt 3:3). Josué já recomendava que nunca nos afastássemos da lei, sob o risco de esquecer e pecar.

f) Pessoas com problemas: a igreja não foi feita para pessoas que podem carregar sozinhas os seus fardos, exortai-vos uns aos outros e edificai-vos uns aos outros, já recomendava Paulo aos Tessalonicenses (1 Ts 5:11-15), ele sabia que cada um dentro da igreja tinha os seus problemas e precisava da ajuda dos demais. Quem prefere a distância da igreja nunca tem a quem recorrer, ou acredita que é um sujeito tão importante que Deus, ao invés de usar a igreja, vai lhe oferecer uma linha particular diretamente com o trono.

g) Pessoas perdidas: você já se perdeu em algum lugar? Enquanto não achava que estava perdido (e muito acham que não estão), a sensação era de liberdade e prazer. Mas quando percebemos que não conhecemos o caminho de volta, o sentimento é aterrador. Os que estão perdidos não tem alívio e nem a chance de se apoiar em outros perdidos.

Quando Cristo ordena a João que escreva às igrejas locais (Ap 2 e 3) Ele se dirige a igrejas cheias de problemas e de defeitos. Ainda assim eram as Suas igrejas, que precisavam de admoestação e de correção. Em nenhum momento somos recomendados a abandonar a igreja.

Éfeso era uma igreja tão ocupada com outras coisas que tinha esquecido de amar a Deus. Esmirna era uma igreja sofredora e pobre. Pérgamo vivia no meio do pecado (mas que honrava a palavra mesmo num lugar ruim), Tiatira tolerava corruptos, Sardes vivia de aparências, Laodicéia se acomodou na sua riqueza material. Filadélfia reconhecia a sua dependência e sabia que não tinha força.

Onde você vai encontrar uma igreja perfeita? (como se você o fosse...): em lugar nenhum enquanto a Igreja Universal não estiver toda reunida no céu.

Enquanto isso, não deixemos de nos congregar, como é costume de alguns (Hb 10:25) certos de que mesmo em igrejas imperfeitas, as portas do inferno não prevalecerão (Mt 16:18).

8 comentários:

Juber Donizete Gonçalves disse...

Fábio,

Gostei do seu artigo. Achei ele equilibrado e bem estruturado. Iniciei esses dias uma série de textos sobre esse assunto também. Parabéns pela postagem.

Graça e Paz,

Juber

Alice disse...

Fabio !!

muito bom o seu post, e não por ser bem escrito e sim porque constrange nossos corações.
Eu vivi anos a fio dentro da igreja, vivi o primeiro, segundo, terceiro quarto quinto vigézimo amor e atuei como ninguém com toda minha força e amor... preguei, cantei, ministrei, profetizei, aconselhei, discipulei, amei com minhas forças, meus atos e minhas entranhas a um povo inesquecível...ainda os amo demais, e sinto uma enorme saudade e vontade de congregar e novamente trabalhar pra Deus, mas depois de ser literalmente "dissolvida" por não permitir que a mentira e o adultério se instalessem sobre o pulpito da igreja e me posicionar contra as manipulações de gente humilde, de ser humilhada por me posicionar a favor da Palavra de Deus, não tenho encontrado mais forças para recomeçar em uma instituição.
Sei que Deus é justo e fiel, assim como tb é amor, pois a todos que me julgaram ELE retirou o ministério, literalmente, ... o pastor não é mais pastor, a pastora tb não o é e a igreja onde tudo aconteceu simplesmente fechou suas portas.
Mas eu choro por isso até hoje....e muito me questiono.
Em tudo o que aconteceu comigo, usei a premissa de oferecer a outra face, não respondi, não questionei, aceitei a humilhação e me recolhi em mim mesma , como se diz, esperei em Deus o seu agir. E O vi agir tão rápido que estou assustada até hoje.
Amo a Deus com um amor que me supera as forças físicas , mas me sinto triste e fraca diante das intistuições.
Não sei o que aconteceu comigo.
Nunca mais consegui encontrar um lugar pra mim e já estou a 2 anos caminhando só. O pior é que tudo o que todos viram acontecer comigo, que sou muito conhecida na cidadezinha onde moro, e por a grande maioria das pessoas conhecerem a verdade que eu defendia e o porque dos fatos, também essas se afastaram das instituições.
Até hoje, saio de casa e levo pessoas em igrejas, apresento pastores, ofereço minha casa para encontros de adoração, tento pastorear os que foram abandonados e encaminha-los a igrejas, mas me sinto extremamente só e desanimada.
Será que isso um dia vai passar ? Será que eu ainda vou encontrar um igreja pra congregar com alegria e sem chorar ?
Será que minhas feridas vão cicatrizar um dia ?
Tento encontrar apoio e consolo em quem já não está mais em igrejas, os entendo como ninguém, mas sinto uma saudade muito grande de trabalhar em uma obra.
Já me disseram que isso é vaidade, e já pedi perdão a Deus por isso, mas não ha nada mais em minha vida que me de alegria. Vivo me sustentando para superar a tristeza que me invade diariamente recheada da saudade de um tempo de amor e felicidade que estou começando a acreditar que não voltará nunca mais.

Fábio Adiron disse...

Alice

Primeiro : feridas cicatrizam sim, geralmente é uma questão de tempo.

Vontade de trabalhar na obra não é vaidade, somos chamados para isso, portanto é uma obrigação cristã(vaidade é daqueles que querem ter o título ou o cargo e não fazem nada)

Daqui desse lado, orarei para que você encontre uma igreja bem imperfeita, que precise de gente como nós, imperfeitos.

Igreja que não coloquem suas estruturas sobre pessoas (essas, sempre vão decepcionar), mas sobre a rocha eterna

Um forte abraço

Fábio

Lou Mello disse...

Hoje essa questão tornou-se complexa. De qualquer forma, aprecio seu esforço em incentivar o pessoal a permanecer, quem sabe você não seja o apóstolo do remanescente fiel?

Fábio Adiron disse...

Lou

Não acho nada complexa. Basta ler o que está escrito. Da mesma forma que não acho nada complexo discernir as igrejas e aquilo que algumas pessoas falsamente chamam de igrejas, de novo, uso a mesma regra, leitura bíblica.

Lou Mello disse...

Talvez eu deva dizer, as pessoas não utilizam a Bíblia corretamente em lugar de complexa.

bete pereira da silva disse...

Fábio, desde o dia em que você fez essa postagem, que estou querendo vir aqui comentar, mas não tinha acesso. O seu texto é um contraponto ao texto daquele outro amigo, sobre confissões de um ex dependente de igreja. Eu li o seu, li o dele, ponderei os dois, me emocionei com os dois.

Apesar de toda fala contra, ainda acredito na igreja, numa igreja imperfeita, sim, mas restaurada. Não podemos nos esquecer que somos filhos da Reforma, não podemos nos esquecer dessa nossa origem de inconformados.

Algo precisa mudar.

Mas em meio a essa necessidade de mudanças, a esses ventos de mudanças, há que existir, aqui e acolá, faróis a sinalizar, para que não percamos o rumo.

É por isso que eu sempre volto aqui.

Rosângela Linhares disse...

Jesus Cristo é o autor e fundador da Igreja. A igreja somos nós, o corpo de Cristo. Mesmo sendo nós imperfeitos, a graça de Deus é derramada abundantemente sobre nossas vidas e a sua misericórdia e o seu amor ultrapassam a qualquer pecado ou deficiência.