sábado, 20 de setembro de 2008

Por uma igreja séria e atuante

A igreja evangélica opta - consciente ou inconscientemente pelo caminho do Titanic. De nada serve limpar as cadeiras no convés.(Volney Faustini)


Volney Faustini, mais do que um excelente profissional que milita na mesma área que eu, é um amigo do coração e verdadeiro irmão. Inconformado com os rumos do movimento evangélico como um todo, escreveu uma lista do que ele percebe como os grandes problemas que enfrentamos dentro de casa (ou seja, dentro das nossas igrejas).

O texto é, obviamente uma visão generalista, raras e nobres exceções não são avistadas a olho nu, mas existem.

No texto, ele pede a colaboração de todos na construção de um texto coletivo que possa levar a alguma ação efetiva. Abaixo segue a minha reescrita, assim como o original, serve como referência, reflexão e aceita sugestões e acréscimos.

1. Crescente Infantilização Teológica

Nossas igrejas temem o estudo teológico sério. Partem do princípio que os crentes, leigos, não serão capazes de compreender temas mais complexos, o que, por si só é negar a capacidade de Deus de se revelar a seu povo. Nossa produção é pífia e fraca. Na grande maioria das vezes não há discussão (no sentido acadêmico e nobre). Os centros de estudo se fecham em posições cada vez mais extremadas.

Qualquer voz discordante é abatida no nascedouro, sem piedade. Antagonizar para tirar mérito e em seguida desclassificar. Traduzem-se diretamente livros textos que se canonizam via comando e controle com um marketing impositivo e arrogante. Parece que não há mais nada para aprender, desenvolver, contextualizar, analisar, contrapor, acrescentar ou diminuir (claro que não nos referimos a acrescentar ou diminuir a Bíblia, mas o estudo teológico sobre ela). Muito menos revolucionar.

Primeiro corolário : Rebanho Vazio e Superficial.

Na sua grande maioria o rebanho evangélico é massa de manobra e mercado de consumo de produtos pseudo-evangélicos. Apesar do grande volume de Bíblias e livros vendidos nos últimos anos, a leitura é disfuncional e superficial. A postura bereana é nula ("porque receberam a palavra com toda avidez, examinando diariamente as Escrituras para ver se estas coisas eram assim" At 17:11). A fraca herança educacional só contribui, e pouco se desafia no sentido da mudança. Interessa à liderança essa perspectiva sombria pois serve como cortina para que os jovens pastores se 'percam' com seus problemas micro.

Segundo corolário : Ausência de Inovação e Estrutura na Educação Teológica.

O postulante ao ministério e pastorado carece de opções. A concorrência entre ofertantes é mínima - há o que sobra, o resto. Pelo porte do Brasil, temos quantos bons centros de preparo teológico e pastoral? Somos quantos Estados da Federação? Temos quantas cidades representativas? Se tivéssemos um exame da OAB Teológico, qual seria o número de aprovados? O que fazer? Pior, muitas das igrejas que se dizem evangélicas, por princípio, ordenam ministros sem nenhuma formação teológica (afinal, para que estudar essas coisas complexas que não vão ser usadas no ida a dia?)

Terceiro corolário : Produção editorial ridícula

Com um mercado relativamente grande as editoras tem tido bons anos de resultados financeiros, sem no entanto se deter para preparar e lançar autores nacionais. Ou melhor, bons autores nacionais. O que temos visto e lido tem sido abaixo da crítica, quando não são reprodução de teses acadêmicas, são textos supostamente apologéticos que mais parecem auto-ajuda.. Deveríamos também reconhecer que nossa dependência em importar e traduzir obras estrangeiras é uma acomodação num modelo ultrapassado e que em nada vai auxiliar em prol da mudança. Que tal um esforço na descoberta e desenvolvimento de novos autores?

2. Esvaziamento da Liderança Nacional

Longe de regurgitar o choro dos órfãos de fulano ou beltrano, e muito menos apregoar um papismo à la gospel tropicalista. Mas refiro-me a nomes de expressão nacional que não se intimidem frente a um debate público de nível (sem artimanhas apelativas do tipo 'mas a Bíblia diz'). Público perante a população em geral, e público também para o interno - os evangélicos. Carecemos de nomes que aglutinem e que enobreçam a representatividade. Nomes que não firam a decência evangélica. Nomes que não tragam uma agenda repleta de politicagem (com cheiro de enriquecimento ilícito e sangue de inocente). Nomes que não nos remetam às suas agendas comerciais de produtos editoriais de quinta categoria. Nomes que sejam genuinamente brasileiros e sim - comprometidos com a transformação macro, ainda sob o risco de serem taxados de messianistas ou ortodoxos.

Primeiro corolário : Espetacularização do Ridículo transformado em Ícones da Juventude

A crescente busca por impacto em apresentações e aparições de certos nomes da fama, tem produzido uma estapafurdia caricatura do cristão. A demanda pelo novo (no sentido de moda, modismo, lançamento) tem criado espetáculo histriônicos numa mistura de pseudo espiritualidade e exageros emotivos e manipulativos. Isso tudo só serve aos imbecis. E os imbecís são servidos 'a eles', aos borbotões. A alavancagem midiática serve à comercialização e interesses empresariais. O ministério, para esses, não se encontra em nenhuma lista de prioridades. Sem engano.

Segundo corolário : Reedição da Dependência externa

Não sabemos o que é mais é triste (o que é pior) : receber o filho de Billy Graham como grande esperança ou manter certos "apóstolos" no status-quo. Por falta de mais alternativas. Rick Warren ou bossa nova na casa de espetáculos ? Programas 'top-down', transmissões via satélite (dubladas ou tradução simultânea)? Grandes nomes para grandes massas ou massas grandes para nomes grandes? Em pleno século XXI, repetimos os trejeitos de uma republiqueta de bananas. Em pleno avanço de país emergente e possivelmente uma das 5 grandes potências em 25 anos, somos, como povo evangélico imaturos, dependentes, bebês-chorões, mimados, fracos e covardes. Não há nem contra-argumentos, nem justificativas.

Terceiro corolário : Institucionalização do poder dentro da própria Instituição.

As agendas (ou a missão) das instituições foram substituidas pelo fim em si mesmo. Ao invés de serem meios para se alcançar o ideário cristão maior, se tornaram matriz da manutenção de poder. Pessoas no comando, mantém, reforçam e garantem o poder para se manter, reforçar e garantir o poder. Organismos que nos remetem ao feudalismo misturado com um capitalimo desenfreado - ora usando a máquina encastelada, ora a dependência econômica. Há exceções - mas façamos uma auto-crítica profunda e descobriremos que o buraco é mais embaixo.


3.Imobilidade

Convivemos no passado com gente que por idade (éramos mais jovens) ou ingenuidade, facilmente se entusiasmava para colocar ordem na casa. Era relativamente mais fácil de se juntar e tomar pelo menos uma atitude e assinávamos uma Declaração. Hoje nem atitude nos é servida nem sequer temos para oferecer. De imediato produziamos um Manifesto ou uma carta aberta. Hoje vejo muita gente infeliz, aflita e revoltosa, com seus corações muito afinados com a agenda do Reino de Deus, a grande Comissão, o testemunho pessoal íntegro e uma vida exemplar de santidade e compromisso. Mas estão isolados e desarvorados com o que nos desafia diante do atual estado das coisas.

Corolário absoluto : Ausência de movimentos de ruptura.

Acomodação, desânimo, distanciamento. Por essas e outras razões, é muito difícil esperar por um movimento de reflexão e de mudanças. Uma iniciativa que venha propor alternativas positivas, que auxilie os que realmente são sinceros e desejosos do progresso do Reino - sem demagogia e sem falsas promessas.

6 comentários:

Volney Faustini disse...

É isso mesmo Fábio - a discussão, o debate, o colocar o assunto à mesa é mais que necessário.

Grato pela fidalguia de sempre.

Vc conseguiu fazer o texto melhor e mais explícito.

Vamos nessa - há uma revolução a fazer ;) ! !

E para todos os calvinistas: Continuemos sempre reformando ..

Ageu disse...

Uma análise panorâmica, que deixa no meu coração um sentimento e desejo de orar por todos nós que somos igreja nesta época. QUe o temor do Senhor esteja nos dirigindo. Que o Espírito que santifica nos santifique em tudo. QUe voltemos ao primeiro amor e compartilhemos as Escrituras com a nossa geração. E no dia-a-dia, ética, integridade, paixão pels vidas. Mirar no reino de Deus, querer a volta do Senhor. Sair dos eventos, feiras e comercialização religiosa. MAnter um estilo de vida despojado. Compaixão. Vida de oração. Irmandade. Visitar os necessitados.
Ageu heringre Lisboa

Juber Donizete Gonçalves disse...

Análise perfeita Fábio. Já tinha lido a lista do Volney também. Eu diria que em razão das decepções, há um vazio de sonhos. Coisa que há 15, 20 anos atrás havia muito.

Abraço.

Celso Oliveira disse...

o link correto é : http://volneyf.blogspot.com/2008/08/cristandade-que-queremos.html

Fábio Adiron disse...

Celso : é exatamente esse que está como link quando me refiro à lista.

Faculdade Teológica disse...

parabens pelo post muito bom mesmo!!!!!!!!


Abs!
Faculdade Teológica